Efeitos Colaterais das QT vermelhas

A sessão  de quimioterapia é algo tranquilo, embora não seja algo fácil para o corpo. Isso porque os componentes quimioterápicos possuem a função de atacar as células cancerígenas, mas eles não distinguem  as  células afetadas pela malignidade das outras que estão sãs. Por essa  razão a cada  ciclo quimioterápico  o corpo se debilita um pouco mais e os efeitos pós-quimio  se intensificam.  Não sei se a preparação para o organismo receber a quimioterapia é igual para todo paciente, mas no meu caso sempre começa com um protetor gástrico, um corticoide e outros dois remédios, um para  enjoos  e outro para vômitos. Só após recebo a quimioterapia. O componente quimioterápico corre na veia numa média de 2 horas. Após o procedimento fico mais 3 dias usando medicação para proteger o estômago, para evitar as náuseas e os vômitos (pantoprazol  de 40mg uma vez ao  dia;  plasil,  decadron  e  vonau  a cada 8 horas).   Nesses  3 dias  seguintes  tenho fadiga intensa, durmo  bastante,  mas não é um sono restaurador. Tenho fortes enjoos e dores de cabeça. Tudo me cansa, até  mesmo falar. Tomo banho sentada.  Sinto a toxicidade da quimioterapia no meu organismo de maneira muito intensa por 7 dias. Passados esses 7 dias algumas vezes consigo até mesmo dirigir.

Já fiz a primeira parte do tratamento quimioterápico, 4 ciclos de quimioterapia vermelha.  Meus cabelos não resistiram,  minhas unhas escureceram, tenho insônia, muita fome (como um absurdo – quanto mais como, mais fome tenho),  minha  pele  está  extremamente sensível, percebo meu rosto inchado, ganhei peso e também uma taquicardia.  Mas isso aconteceu gradativamente.

1ª quimioterapia: senti sono e muito cansaço, exatamente tudo me cansava, até um simples banho, falar por muito tempo me causava fadiga. Percebi meu apetite aumentado, comecei a comer um absurdo  (e eu sempre fiquei satisfeita com pouca comida). Foi estranho porque quanto mais eu comia, mais eu sentia vontade de comer. Usei uma touca que se chamascalp cooler – ela  congela o couro cabeludo durante  todo o ciclo da  quimioterapia, sua  função é a de reduzir em até 50% a queda dos fios  - e é uma sensação bem ruim, senti dores de cabeça, gelou  muito e eu saí da clínica com pedrinhas de gelo no cabelo. Perdi poucos fios e  de forma homogênea.

scalp cooler
Pedrinhas de gelo na minha cabeça pós retirar a scalp cooler

2ª quimioterapia: a partir dessa quimio, além de sentir muita fome, enjoos e cansaço, comecei a perceber que a minha pele estava extremamente sensível, meu rosto começou a ficar manchado e escuro, algumas das minhas unhas das mãos começaram a ficar com manchas escuras. Mesmo usando a touca que reduz a queda, meu cabelo começou a cair em maior quantidade, deixando uma falha bem no topo da minha cabeça. Decidi cortar os fios na altura dos ombros.  Tive enxaqueca, sensibilidade a tudo que fosse gelado e até mesmo o vento me causava  náuseas, associei isso à touca  scalp cooler e  percebi que minha vaidade não merecia  tanto sofrimento, por isso decidi que no ciclo seguinte da quimioterapia não mais usaria a  scalp cooler.

3ª quimioterapia: foi a primeira quimioterapia feita pelo  cateter e também sem a  touca  scalp cooler.  Tive um sintoma novo: taquicardia. Em decorrência disso,  fui atendida por um cardiologista, coloquei  Holter (é um aparelho que passa 24 horas medindo sua frequência cardíaca)  e a partir de então  passei a  tomar um remédio  pra  desacelerar meu coração 2x por dia, todos os dias. Fiz sem a touca, meus cabelos já estavam caindo bem, mas ainda dava  para  mantê-los e disfarçar com faixas e grampos. Senti cansaço, sono, enjoo e fome, além de 5kgs a mais desde o início do tratamento.   Meu rosto  começou a voltar ao normal sem as manchas, mas todos os dedos das mãos já estavam com as unhas com manchas escuras.

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Dia em que meus cabelos resolveram cometer suicídio de vez! Dá pra ver minha unha manchada também… 

4ª quimioterapia: a pior e a mais difícil até agora. Tive fortes dores de cabeça desde a hora da aplicação da medicação, e, pela primeira vez vomitei. Fiquei baqueada por  dias. Meu cabelo não resistiu a  essa quimio e minhas unhas, além de escuras, começaram a ficar sensíveis também. Passei a sentir enjoos com cheiros fortes, não consigo usar nem perfume. Minha pele está bem sensível. Aqui já estou com 6kg a mais desde o início do tratamento, a fome que eu sinto é absurda.  Comecei a usar lenços que ganhei de uma amiga e de uma companheira de quimioterapia, ainda estou aprendendo a me virar e amarrá-los direitinho, mas daqui a pouco fico expert no assunto! Ainda não estou completamente recuperada desse quarto ciclo.

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Exatamente como me sinto agora! kkk 

Não foi fácil, mas também não foi impossível, penso que o pior já passou, consegui me manter forte e equilibrada durante esse período, isso é essencial para que eu consiga seguir com o tratamento. 🙂

Semana que vem, dia 27 de setembro, faço a primeira sessão da quimioterapia branca. A expectativa é que ela traga o simbolismo do branco, que sugere libertação, ilumina o lado espiritual e restabelece o equilíbrio interior.

Beijos,

Bel ❤

E as quimioterapias? Como são feitas?

O meu protocolo parte da utilização da quimioterapia neoadjuvante. Isso quer dizer que antes de ser submetida ao procedimento cirúrgico passarei pelas quimioterapias (já fiz as 4 vermelhas!). Pelo que entendi, utilizar a quimioterapia como neoadjuvante significa uma tendência maior a completar o protocolo permitindo uma avaliação mais precisa de prognósticos, além de desenvolver fatores de resposta que melhoram o planejamento do tratamento, como uma terapia personalizada. A quimioterapia neoadjuvante objetiva reduzir o volume tumoral e o comprometimento axilar, aumentando a possibilidade de cirurgia conservadora e melhora dos desfechos cirúrgicos, permite também, e creio que seja um fator importante, a “avaliação in vivo da eficácia do tratamento.”.

A quimioterapia pode ser feita por acesso na veia, ou pelo acesso no cateter (também conhecido por Porth-A-Cath). O Dr. João me falou desde o primeiro momento em implantarmos um cateter, mas os meus dois primeiros ciclos foram feitos pela veia. No primeiro foi feito um acesso na minha mão e no segundo, no antebraço. Não doeu, mas foi desconfortável, manchou minha pele por dias, e o local ficou bem dolorido. Meu braço ficou arroxeado aproximadamente uns 20 dias.

O cateter nada mais é que um fio e um reservatório totalmente implantados, o fio vai até a veia jugular interna e o reservatório fica na veia subclávia (tórax). É implantado no centro cirúrgico, após jejum e sedação. No meu caso o procedimento durou cerca de uma hora, depois repouso de umas duas horas e em seguida fui liberada para ir para minha casa, senti leve incômodo nos primeiros dias, afinal é um corpo estranho dentro do nosso organismo, mas é tranquilo, nada de impossível. Apesar de achá-lo horrível sei que ele está aqui para o meu bem. E mesmo me sentindo incomodada com a aparência, me incomoda muito mais a curiosidade das pessoas, pois elas olham e nem disfarçam, parece que se sentem autorizadas a olhar, sem se perguntarem se estão sendo inconvenientes, mas enfim, paciência… O bom senso mandou um beijo!

Os terceiro e quarto ciclos da quimioterapia fiz pelo cateter. O cateter é seguro e com ele as quimioterapias tornam-se mais “confortáveis”, evita que eu fique sendo furada o tempo todo, também penso que mil vezes melhor com ele, e já que estamos juntinhos, o considero meu amigo (rs). Como foi recente que o coloquei tenho alguns cuidados com ele: higienização com álcool 70%, além de não dirigir ou pegar peso. Sem mistério. Quem tiver de colocar, pode ir sem medo, facilita a vida. Antes da sessão de quimioterapia eu passo uma pomada anestésica em cima dele e não sinto nada de dor. Quem toca no meu cateter é apenas a equipe do CETTRO, assim evitamos complicações como infecções. Para tirar sangue ou fazer outros exames, faço tudo pelas veias normalmente.

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3ª sessão de quimio com o meu novo amigo =)

No próximo post pretendo relatar a minha experiência com a quimioterapia e os efeitos colaterais que ela tem causado em mim. 

Beijos,

Bel ❤

 

 

O diagnóstico – parte II

Saímos do consultório sem acreditar no que ouvimos. Minha mãe disse: vamos ter fé. O que tínhamos em mente é que havia um engano, pois eu estava fazendo acompanhamento com a ginecologista e havia feito exames de imagem oito meses antes. Pensávamos não ser possível que um câncer tivesse aparecido em oito meses. Procuramos a médica com quem eu tinha feito o último ultrassom das mamas e naquela sexta-feira mesmo fiz outro. Ao visualizar a imagem ela disse: “Essa imagem com certeza não estava aqui antes. Infelizmente a imagem não é bonita.” (Classificou como BI-RADS 5 que significa risco de lesão maligna acima de 95%). Voltamos para casa já no final do dia.  Não dormimos praticamente nada durante essa noite e quando dormíamos um pouco e acordávamos pensávamos que havia sido um pesadelo, mas descobríamos que não. Que aquele pesadelo era real. No dia seguinte ao acordarmos comecei a chorar e disse para a minha mãe que eu estava com muito medo. Ela começou a chorar também e disse: “eu também estou com muito medo”. Quando vi minha mãe chorando parei imediatamente o meu choro. Só me lembro de ter chorado novamente no dia que o diagnóstico se confirmou pela biópsia. Não que eu não tenha angústias, medo e insegurança, mas porque tem uma força que tem atuado muito forte em nossas vidas. Só posso crer que é a força da fé. São os braços de Deus a me amparar.
No sábado minha mãe ligou para a minha madrinha e ela pediu que fossemos à casa dela no dia seguinte e levássemos os exames. Ela e meu padrinho são médicos. Analisados os exames meu padrinho ligou para uma oncologista, conversou com ela pegou o contato de um mastologista conhecido deles e no dia seguinte, na segunda-feira, fomos para uma consulta com ele. Muito embora esse mastologista tenha classificado como uma lesão altamente suspeita, o tratamento para comigo foi bem diferente. Ele foi bastante claro, de modo que eu percebesse que era necessário uma biópsia e que essa biópsia revelaria que eu estava com câncer. Mas a diferença desse profissional é que me tratou com respeito, com humanidade. Na terça-feira, ele mesmo fez a biópsia no meu nódulo.
A partir do momento em que falamos com meus padrinhos, eu soube que estaria em boas mãos. Apesar de estar prestes a confirmar que eu estava com câncer estava sendo tratada com empatia.

Os exames que fiz foram:

1. Core-biopsy: é a biópsia feita por uma agulha grossa. Essa agulha belisca algumas vezes o tumor e esses fragmentos são encaminhados ao médico patologista. A escolha desse tipo de biópsia leva em consideração o tamanho e a solidez do nódulo. Tem anestesia. Não senti dor, apenas um incômodo. Achei que sangra bastante, talvez por isso o acompanhante não assiste ao procedimento. Mas eu pude ser acompanhada pela minha madrinha que é medica e isso para mim fez toda a diferença, porque era um momento bem difícil. Agradeço a Deus porque pude ter naquela hora, segurando na minha mão, uma pessoa que eu amo e que me ama muito também. Fiquei bem baqueada nesse dia, era muita coisa na minha cabeça, mas tinha algo em mim que me fazia enfrentar com coragem aquilo, uma força a me amparar. Saí de lá enfaixada, fiquei bem dolorida por vários dias. Ficou arroxeado o local. Fica bem feio, mas o bom é que passa. Hoje só tem a marca da agulha mesmo e creio eu, que por uma condição da minha pele que é morena e mancha com mais facilidade.

2. Ressonância magnética das mamas; tomografia computadorizada de abdômen total e do tórax: são exames de imagem com contraste, para os quais tomava um comprimido de antialérgico, tinha que fazer jejum de 4 ou 8 horas e na hora do exame era aplicado, na veia, o contraste.

3. Cintilografia e ecodoppler do coração. A cintilografia é o exame do corpo total, uma verificação de se o câncer já se espalhou para outras partes. Aguardar o resultado da cintilografia foi para mim desesperador.
Todos esses exames foram feitos em uma semana, enquanto aguardávamos o resultado da biópsia.
Foi uma saga para mim e para minha mãe. Eu já estava exausta, com os braços roxos e furados, com a aparência horrível, desgastada, com o emocional abalado e não aguentava mais ouvir falar em doença. Acho que foi o período mais difícil até aqui. Tinha uma confusão de sentimentos: medo, pavor, angústia, incertezas. Isso porque até ali eu não sabia a dimensão exata do que me esperava. Eu realmente fiquei por uma semana achando que meus dias estavam contados. Com o resultado da cintilografia, o desespero me deixou um pouco, porque pelo menos eu sabia que o câncer estava na mama e na axila, ele não estava espalhado pelo meu corpo.
Na sexta-feira confirmou-se o diagnóstico. Chorei um pouco, mas já tinha uma semana de desespero. Não dava mais para negar, então era hora de aceitar.
Então na segunda-feira, com todos aqueles resultados fomos ao oncologista, indicado pelos meus padrinhos. Novamente minha madrinha nos acompanhou, aliás, foi ela quem marcou. Ela disse: “só poderia confiar a Belinha ao João” (que lindo!! Sou mesmo muito amada). Minha ficha já tinha caído, eu já estava tranquila. O Dr. João me explicou tudo direitinho, de forma bem pausada: o tipo de câncer, o tratamento, o tempo de tratamento, o resultado esperado. Me disse algo muito importante: que o câncer é uma doença que está “mapeada”; que existe um protocolo internacional; isso significa que se eu fosse para os Estados Unidos, para o Reino Unido ou para a Europa, eu teria o mesmo tratamento que estou tendo aqui em Brasília. Saí de lá com duas certezas: nada estava perdido, e que câncer tem cura, então o meu tratamento é curativo. Foi marcada uma nova consulta para a quarta-feira porque eles aguardavam a imunohistoquímica, que numa linguagem não médica, para nós pacientes, é a assinatura do tumor. A partir dessa “assinatura” decide-se o protocolo a seguir. Na terça-feira, final do dia, eu conheci a assinatura do meu diagnóstico: CARCINOMA DUCTAL INFILTRANTE DE MAMA ESQUERDA, GRAU II DE NOTTINGHAM, RECEPTOR DE ESTRÓGENO-POSITIVO, RECEPTOR DE PROGESTERONA-POSITIVO COM EXPRESSÃO NEGATIVA DOS PRODUTOS HER2. (T2N2M0 – QUE SIGNIFICA QUE TENHO UM TUMOR QUE TEM ENTRE 2CM E 5CM DE DIÂMETRO. N2. QUE INDICA QUE O TUMOR SE DISSEMINOU PARA LINFONODOS AXILIARES E M0. QUE SIGNIFICA A AUSÊNCIA DE METÁSTASE). Meu protocolo: 1ª Fase: 4 ciclos de quimioterapia, um a cada 15 dias. 2ª Fase: 12 ciclos de quimioterapia, um a cada semana. Na quarta-feira mesmo, logo após a consulta fiz a primeira sessão de quimioterapia.

Não poderia estar em mãos melhores, estou fazendo o tratamento na Clínica Cettro em Brasília. Toda a equipe é extremamente cuidadosa e acolhedora. Sou só elogios a eles. Tenho um carinho enorme pelo Dr. João, ele me explica tudo o que pode acontecer da maneira mais didática possível e aceitável (eu acho) e não poderia deixar de falar sobre o pessoal da enfermagem, pois todos eles têm mãos de fada. São atenciosos, zelosos, sabem exatamente quem é o paciente, tratam todos pelo nome. Eles fazem com que as agulhadas que eu levo e as quimioterapias que eu faço tornem-se mais suportáveis.

Beijos,

Bel ❤