O diagnóstico – parte II

Saímos do consultório sem acreditar no que ouvimos. Minha mãe disse: vamos ter fé. O que tínhamos em mente é que havia um engano, pois eu estava fazendo acompanhamento com a ginecologista e havia feito exames de imagem oito meses antes. Pensávamos não ser possível que um câncer tivesse aparecido em oito meses. Procuramos a médica com quem eu tinha feito o último ultrassom das mamas e naquela sexta-feira mesmo fiz outro. Ao visualizar a imagem ela disse: “Essa imagem com certeza não estava aqui antes. Infelizmente a imagem não é bonita.” (Classificou como BI-RADS 5 que significa risco de lesão maligna acima de 95%). Voltamos para casa já no final do dia.  Não dormimos praticamente nada durante essa noite e quando dormíamos um pouco e acordávamos pensávamos que havia sido um pesadelo, mas descobríamos que não. Que aquele pesadelo era real. No dia seguinte ao acordarmos comecei a chorar e disse para a minha mãe que eu estava com muito medo. Ela começou a chorar também e disse: “eu também estou com muito medo”. Quando vi minha mãe chorando parei imediatamente o meu choro. Só me lembro de ter chorado novamente no dia que o diagnóstico se confirmou pela biópsia. Não que eu não tenha angústias, medo e insegurança, mas porque tem uma força que tem atuado muito forte em nossas vidas. Só posso crer que é a força da fé. São os braços de Deus a me amparar.
No sábado minha mãe ligou para a minha madrinha e ela pediu que fossemos à casa dela no dia seguinte e levássemos os exames. Ela e meu padrinho são médicos. Analisados os exames meu padrinho ligou para uma oncologista, conversou com ela pegou o contato de um mastologista conhecido deles e no dia seguinte, na segunda-feira, fomos para uma consulta com ele. Muito embora esse mastologista tenha classificado como uma lesão altamente suspeita, o tratamento para comigo foi bem diferente. Ele foi bastante claro, de modo que eu percebesse que era necessário uma biópsia e que essa biópsia revelaria que eu estava com câncer. Mas a diferença desse profissional é que me tratou com respeito, com humanidade. Na terça-feira, ele mesmo fez a biópsia no meu nódulo.
A partir do momento em que falamos com meus padrinhos, eu soube que estaria em boas mãos. Apesar de estar prestes a confirmar que eu estava com câncer estava sendo tratada com empatia.

Os exames que fiz foram:

1. Core-biopsy: é a biópsia feita por uma agulha grossa. Essa agulha belisca algumas vezes o tumor e esses fragmentos são encaminhados ao médico patologista. A escolha desse tipo de biópsia leva em consideração o tamanho e a solidez do nódulo. Tem anestesia. Não senti dor, apenas um incômodo. Achei que sangra bastante, talvez por isso o acompanhante não assiste ao procedimento. Mas eu pude ser acompanhada pela minha madrinha que é medica e isso para mim fez toda a diferença, porque era um momento bem difícil. Agradeço a Deus porque pude ter naquela hora, segurando na minha mão, uma pessoa que eu amo e que me ama muito também. Fiquei bem baqueada nesse dia, era muita coisa na minha cabeça, mas tinha algo em mim que me fazia enfrentar com coragem aquilo, uma força a me amparar. Saí de lá enfaixada, fiquei bem dolorida por vários dias. Ficou arroxeado o local. Fica bem feio, mas o bom é que passa. Hoje só tem a marca da agulha mesmo e creio eu, que por uma condição da minha pele que é morena e mancha com mais facilidade.

2. Ressonância magnética das mamas; tomografia computadorizada de abdômen total e do tórax: são exames de imagem com contraste, para os quais tomava um comprimido de antialérgico, tinha que fazer jejum de 4 ou 8 horas e na hora do exame era aplicado, na veia, o contraste.

3. Cintilografia e ecodoppler do coração. A cintilografia é o exame do corpo total, uma verificação de se o câncer já se espalhou para outras partes. Aguardar o resultado da cintilografia foi para mim desesperador.
Todos esses exames foram feitos em uma semana, enquanto aguardávamos o resultado da biópsia.
Foi uma saga para mim e para minha mãe. Eu já estava exausta, com os braços roxos e furados, com a aparência horrível, desgastada, com o emocional abalado e não aguentava mais ouvir falar em doença. Acho que foi o período mais difícil até aqui. Tinha uma confusão de sentimentos: medo, pavor, angústia, incertezas. Isso porque até ali eu não sabia a dimensão exata do que me esperava. Eu realmente fiquei por uma semana achando que meus dias estavam contados. Com o resultado da cintilografia, o desespero me deixou um pouco, porque pelo menos eu sabia que o câncer estava na mama e na axila, ele não estava espalhado pelo meu corpo.
Na sexta-feira confirmou-se o diagnóstico. Chorei um pouco, mas já tinha uma semana de desespero. Não dava mais para negar, então era hora de aceitar.
Então na segunda-feira, com todos aqueles resultados fomos ao oncologista, indicado pelos meus padrinhos. Novamente minha madrinha nos acompanhou, aliás, foi ela quem marcou. Ela disse: “só poderia confiar a Belinha ao João” (que lindo!! Sou mesmo muito amada). Minha ficha já tinha caído, eu já estava tranquila. O Dr. João me explicou tudo direitinho, de forma bem pausada: o tipo de câncer, o tratamento, o tempo de tratamento, o resultado esperado. Me disse algo muito importante: que o câncer é uma doença que está “mapeada”; que existe um protocolo internacional; isso significa que se eu fosse para os Estados Unidos, para o Reino Unido ou para a Europa, eu teria o mesmo tratamento que estou tendo aqui em Brasília. Saí de lá com duas certezas: nada estava perdido, e que câncer tem cura, então o meu tratamento é curativo. Foi marcada uma nova consulta para a quarta-feira porque eles aguardavam a imunohistoquímica, que numa linguagem não médica, para nós pacientes, é a assinatura do tumor. A partir dessa “assinatura” decide-se o protocolo a seguir. Na terça-feira, final do dia, eu conheci a assinatura do meu diagnóstico: CARCINOMA DUCTAL INFILTRANTE DE MAMA ESQUERDA, GRAU II DE NOTTINGHAM, RECEPTOR DE ESTRÓGENO-POSITIVO, RECEPTOR DE PROGESTERONA-POSITIVO COM EXPRESSÃO NEGATIVA DOS PRODUTOS HER2. (T2N2M0 – QUE SIGNIFICA QUE TENHO UM TUMOR QUE TEM ENTRE 2CM E 5CM DE DIÂMETRO. N2. QUE INDICA QUE O TUMOR SE DISSEMINOU PARA LINFONODOS AXILIARES E M0. QUE SIGNIFICA A AUSÊNCIA DE METÁSTASE). Meu protocolo: 1ª Fase: 4 ciclos de quimioterapia, um a cada 15 dias. 2ª Fase: 12 ciclos de quimioterapia, um a cada semana. Na quarta-feira mesmo, logo após a consulta fiz a primeira sessão de quimioterapia.

Não poderia estar em mãos melhores, estou fazendo o tratamento na Clínica Cettro em Brasília. Toda a equipe é extremamente cuidadosa e acolhedora. Sou só elogios a eles. Tenho um carinho enorme pelo Dr. João, ele me explica tudo o que pode acontecer da maneira mais didática possível e aceitável (eu acho) e não poderia deixar de falar sobre o pessoal da enfermagem, pois todos eles têm mãos de fada. São atenciosos, zelosos, sabem exatamente quem é o paciente, tratam todos pelo nome. Eles fazem com que as agulhadas que eu levo e as quimioterapias que eu faço tornem-se mais suportáveis.

Beijos,

Bel ❤

 

8 comentários em “O diagnóstico – parte II

  1. Ontem de noite mesmo estava me matando de rir e hoje me fazendo chorar com essas palavras cheias de histórias já colecionadas! Quantas lembranças! 💛😍 Quantos sentimentos vivemos! Hoje fazendo as contas vimos juntas que muito da nossa estrada já ficou pra trás! Quanto tempo já se passou pra nós! Quantas conquistas já tivemos! 🎉🙏🏻 Esse cantinho merece até um post exclusivo pro Dr. João, nosso pai nessa fase. O que dizer desse profissional ímpar? Que sorte a nossa! Ele te cuida e te protege de tudo o que não está, cientificamente, ao alcance de nós! Para todo o resto: você está blindada por todo o cuidado e proteção nossa! Como você é amada! Ainda bem que Deus me deu você de presente! 🎁
    TE AMO!!!!!!! 💞👭💞

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  2. Minha xará! Me identifiquei muito com seu relato, pois tive um caso similar na família. Hoje ela está curada. E lhe digo: vai passar! Câncer tem cura. Você vai ficar bem! Fé, força e pensamento positivo sempre!

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  3. Oi minha linda, sou a Adriana “https://lavienrosedadri.blogspot.com/”. Tenho 46 anos e estou tratando um tumor idêntico ao seu (a exceção é que os linfonodos e margens estavam livres). Tirei a mama, também esquerda, no dia 24/07 e na ultima quarta 29/08 comecei a químio. Foi muito bom ler o teu relato (vou ler todo o blog com calma) e só nos sentimos realmente compreendidas por quem passou ou está passando pelo mesmo. Por mais que a família e amigos nos amem e cuidem de nós como verdadeiros anjos, eles não podem tomar o nosso lugar e esse é o maior aprendizado de todos: aprender a enfrentar meus medos com coragem e sozinha. Tive algumas decepções com familiares e amigos (acho que em algum grau todos acabam tendo) e isso também está sendo bem chato, mas estou superando. Estou sendo tratada num lugar incrível o IBCC aqui de São Paulo. E como você eu sinto uma vontade imensa de ajudar aqueles que estão inciando a mesma trilha que nós. Um beijo muito afetuoso e enviando meus desejos mais lindos de cura e amor para você.

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    1. Oi, Adriana!

      Poxa, que bom que você está se tratando em um lugar incrível. No início ficamos meio perdidas, sem chão, não é mesmo? Mas da mesma maneira que vem tudo isso de uma vez em nossas vidas, tudo isso também vai embora. Se recupere, faça todas as suas quimios e fique totalmente bem e aí comece a se doar… você vai ver, ganha mais quem doa do que quem recebe. É incrível. Obrigada pelo carinho… um beijo grande, desejo que você melhore e fique CURADA. Fica com Deus ❤

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