O diagnóstico – parte I

Sempre fui muito vaidosa, exagerada mesmo, do tipo de pessoa que não pode sair de casa se um fio de cabelo estiver fora do lugar. Sempre aceitei meu corpo, mas pensava que poderia melhorar uma coisa aqui, outra ali… Sou extremamente perfeccionista nas coisas que eu faço, com a minha aparência não poderia ser diferente. Toda essa  cobrança em mim mesma sempre foi baseada no que eu estabeleci como o meu próprio padrão de beleza e jamais por padrões que são impostos pela sociedade. Não vejo problema em quem gosta de se cuidar e não acho que seja futilidade, penso que cada um é dono de si e tem o livre arbítrio para fazer o que lhe proporcione bem estar e segurança.

Desde muito nova eu quis colocar silicone, era o meu sonho. Primeiro, porque  sentia que faltava algo ali, sabe? Segundo, porque sempre aparentei ter muito menos idade do que realmente tenho. Logo, achei que isso pudesse me deixar um pouco mais “velha”, então ficava pedindo pra minha mãe. Ela só permitiu depois de várias opiniões médicas, e, principalmente, por ela ter percebido que isso me deixaria feliz (sempre querendo me ver feliz <3). Então, em fevereiro de 2016 coloquei as próteses aqui em Brasília. O  cirurgião, foi indicado pela mãe de uma amiga e me passou muita confiança. Eu queria algo natural, adequado ao meu corpo, nada de exagero. E assim foi, eu fiquei super feliz da vida!

Em abril ou maio deste ano, vendo fotos minhas de biquíni e umas fotos de um ensaio que fiz com um profissional, comecei a achar que algo estava estranho. Parecia que minha mama estava torta, uma menor que a outra… mas como sou exagerada, pensei que pudesse ser coisa da minha cabeça ou excesso de vaidade, nem dei bola. Em julho, fazendo minhas inspeções comecei a pensar que minha prótese estava se deslocando, foi então que apalpando a mama esquerda senti um nódulo. Fiquei preocupada e falei com minha mãe que resolveu marcar uma consulta com o último mastologista que havia me atendido.

Dia 21 de julho fomos à consulta.  Minha mãe não ia comigo, mas acabou indo, ainda bem, porque ao ouvir a “bomba”, se estivesse sozinha, com certeza eu não saberia encontrar o rumo de casa. O médico era o mesmo que havia sido consultado em 2016 para opinar sobre a prótese de silicone.  Eu não vou citar nomes porque sei das consequências de expor alguém, só por isso, mas posso dizer que ele – embora tenha sido preciso no diagnóstico – foi desumano na forma como se expressou. Só posso pensar que, uma vez que tinha sido dele a última opinião que ouvimos para que minha mãe permitisse que eu colocasse o silicone, e ele sabia disso naquele momento, talvez ele tenha tido o receio de que pudéssemos querer responsabilizá-lo de alguma forma. Só encontro essa justificativa para que ele tenha praticamente gritado, como se gritasse a uma porta ou a um animal que não esboçaria qualquer reação ou sentimento que eu tinha câncer de mama. Ele foi totalmente frio, insensível. O que me ocorre é que, mesmo sendo qualificado falta-lhe respeito pela dor humana, parece-me que ninguém disse a ele ainda que cada pessoa é única e que não se diz a uma pessoa, seja qual for a idade dela, não importa quanto já tenha vivido, que ela tem um câncer, da forma como ele disse. Eu não queria que ele fizesse com que eu me sentisse coitadinha, tenho horror a isso. O que eu queria era ter recebido a “bomba” de uma forma mais digna, e não como se eu fosse a responsável por ela.

Sinceramente? Recebi a notícia como uma sentença de morte, eu realmente achei que estivesse com meus dias contados, e pior, por culpa minha, pois foi assim que aquele profissional fez com que eu me sentisse… Em total desespero eu pensava: vivi tão pouco, por que vou morrer tão jovem? Que dia terrível!!! Era uma sexta-feira e não havia muito o que fazer.

Tentei resumir ao máximo como recebi o diagnóstico, mas é uma longa história. Por isso, decidi separar em duas partes. Amanhã conto como foram os exames.

Beijos,

Bel ❤

O início de tudo…

Descobrir um câncer não é fácil, ainda mais na minha idade, sempre fiz mil planos, e sempre mentalizei tudo o que eu quis na minha vida. Parece até loucura, mas eu tinha tudo planejado: idade que iria me formar, idade que iria me casar, idade que iria passar num concurso. Coisa de virginiana!  Penso que eu estava vivendo minha vida de acordo com o planejado, tudo nos conformes. Estava me dedicando bastante aos meus estudos também, até porque eu sonho alto demais e as minhas metas exigem muito estudo, sempre fui muito ambiciosa em relação aos meus planos e nunca vi nada de errado nisso.

Por um desígnio da vida fui diagnosticada com câncer. Logicamente minha vida virou de cabeça pra baixo, não só a minha, como a da minha família, e, em especial, a da minha mãe. No final de julho, de repente nos deparamos com um fato assustador: fui diagnosticada com câncer de mama, aos 20 anos de idade. Recebemos a notícia da pior maneira possível, por um profissional totalmente insensível. Minha maior preocupação no início de tudo seria se eu sobreviveria, até porque eu não sabia de nada, era algo totalmente novo e inesperado. Minha mente deu um nó bem difícil de desamarrar. Eu e minha mãe entramos em desespero, vivemos dias de horror. Comecei a perceber que meus problemas não eram problemas de verdade e as questões do dia a dia que eu tanto reclamava não eram nada. Todas as questões que antes me incomodavam, me deixavam ansiosa ou me despertavam qualquer sentimento ruim passaram a ter um peso mínimo na minha vida.

Na primeira semana em que tive a suspeita, eu acordava todos os dias achando que era um pesadelo, mas não era. Depois foi ficando mais “normal”. Passado o susto inicial, depois de um auxílio médico correto (graças aos meus amados padrinhos), biópsias, ressonâncias e outros mil exames feitos eu passei a aceitar da forma mais tranquila que pude. Tive que ser racional e colocar na minha cabeça que não adiantaria nada desespero, até porque, sou privilegiada demais, pois estou tendo uma assistência médica de ponta, além de um amparo imenso das pessoas que sabem desde o início. Não tenho absolutamente nada a reclamar, na verdade, só tenho a agradecer. (Inclusive, obrigada mãe, por viver isso junto comigo e não sair do meu lado por um segundo!!!)

Digeri essa bomba e sempre tive a consciência de que teria que me tratar. Infelizmente tive que desacelerar a minha rotina e agora não tenho mais as mesmas atividades que eu tinha, mas tudo bem. Muita gente se assusta ou acha estranho toda essa tranquilidade, mas penso que tudo vai da fé de cada um.

Em momento algum questionei o motivo de tudo isso acontecer comigo, apenas decidi seguir em frente e lutar com todos os meus artifícios contra essa doença maldosa, silenciosa e que mata tanta gente. E mais, tenho fé e acredito que vou sair curada disso.

O tratamento é longo, a saúde fica frágil e a imunidade abaixa. Ficou decidido pelo meu oncologista (que é maravilhoso por sinal) que o meu tratamento inicialmente são de 16 sessões de quimioterapia, 4 sessões da quimioterapia vermelha (a mais forte) a cada 15 dias e depois 12 sessões da branca 1x por semana cada. Já fiz três sessões da vermelha! Faltam 13 ao todo (acho que farei outro post falando sobre quimioterapias, esse aqui vai ficar gigantesco e cansativo).

Enfim, decidi criar essa página para que eu consiga ir relatando aos poucos sobre o que eu sinto pós quimioterapias, sobre o que eu penso, sobre as situações que eu passo, a minha rotina em geral com o câncer, e, principalmente, para mostrar que eu sairei dessa vitoriosa. Câncer tem cura!!! Obviamente eu tenho meus altos e baixos, há dias que acordo bem, há dias que acordo mal, há dias que não quero olhar na cara de ninguém, há dias que quero ver o mundo… É um processo bem longo e difícil, mas que estou me adaptando aos poucos e moldando essa nova fase da minha vida em cima disso.

Beijos,

Bel