Ciclo encerrado 🗝

Essa experiência louca, intensa e única que é ter tido câncer me transformou completamente. Hoje sou outra pessoa.

Eu não tive a menor opção quando ele chegou na minha vida sem pedir licença. É que tudo aconteceu muito rápido e de uma  forma abrupta e imprevisível. Eu só era uma menina de 20 anos, cheia de inseguranças, medos, complexos e incertezas.

Poxa, mas e aí? E aí que eu fiz o melhor que eu pude dessa experiência toda. Não foi fácil, na verdade nunca foi. Foram muitas lágrimas, sustos, noites em claro e inúmeras súplicas a Deus para Ele que me curasse (e Ele me curou). A dor veio e foi embora, mas a lição ficou.

Quantas oportunidades eu tive. Posso até listar as mais memoráveis:

  1. Entendi e aprendi o que é ter fé e espiritualidade;
  2. Tive a alegria de fazer amizades pelo mundo (que hoje levo para a vida);
  3. Sou voluntária de uma ONG que tanto admiro (o Instituto Oncoguia);
  4. Amadureci bastante (mesmo que à força);
  5. Entendi o quanto sou querida e amada;
  6. Dei outro significado para a vida, passei a dar mais valor aos pequenos momentos;
  7. Tive a sorte de cruzar com profissionais maravilhosos;
  8. Viajei para outro país para conhecer jovens que são portadores de uma predisposição genética – assim como eu sou – e profissionais que estudam essa predisposição e,
  9. Criei um projeto que impacta vidas (se você não conhece, corre para conhecer).

Se eu mudaria alguma coisa nos últimos anos? Não mudaria. Tudo o que me aconteceu foi essencial para a construção da Isabel de hoje.

Aliás, acredito que nada disso teria acontecido se eu não tivesse passado pelo câncer. E eu sou grata. Essa foi a forma pela qual eu pude aprender e sentir o que realmente importa na vida. Eu SEI que essa foi a forma que Deus encontrou para que eu pudesse trilhar a minha jornada. 

A minha vida voltou ao “normal” dentro do possível… Faço os meus exames semestralmente (fico ansiosa como todo paciente), tomo meu Tamoxifeno diariamente (terei que tomar por 10 anos) e levo injeções de Zoladex mensalmente. Lido diariamente com os temidos efeitos colaterais de uma menopausa precoce, mas faz parte.

Refleti bastante e resolvi que não teria mais sentido em escrever aqui no blog. Vou manter a página como uma forma de ajudar a inspirar quem está enfrentando a jornada do câncer, todavia, entendo que a minha missão de escrever aqui no blog se encerrou. Sou muito grata ao apoio incondicional e à torcida que recebi, nunca vou me esquecer disso.

Tenho novos projetos, planos e sonhos para 2020 e para os próximos anos! Minha missão continua, mas de outra forma.

Quer conversar comigo, perguntar algo ou contribuir de alguma forma com meus projetos?

Você pode me encontrar no meu Instagram pessoal e também continuo no Câncer Sem Tabu.

Meu e-mail: isabelccosta@outlook.com.br

Gratidão por tudo.

Nunca desistam, tenham fé e acreditem. Nada é por acaso.

Um feliz 2020 e um grande beijo,

Bel ❤️💫✨

Boston, Youth Workshop, Síndrome de Li Fraumeni

Chega a ser engraçado o fato de que apesar de ter sofrido muito, o câncer trouxe e ainda traz muitas pessoas e alegrias na minha vida após todo esse tempo!

Nunca falei sobre isso abertamente aqui no blog, mas sou portadora de uma condição genética de predisposição ao câncer, essa condição genética é considerada uma doença rara. Vou logo adiantando que não sou vítima, que isso não é sentença e que tá tudo bem.

Minha geneticista (Dra. Renata Sandoval) me apresentou uma organização (Li Fraumeni Association) que é responsável por unir os pacientes que são portadores dessa condição, bem como promover pesquisas e estudos acerca da condição genética.

Cerca de dois meses atrás minha geneticista me contou que aconteceria um evento promovido pela Associação – um Youth Workshop para jovens portadores da condição genética -, prontamente eu acessei o site da Associação e busquei saber mais sobre o evento. Acabei enviando um e-mail para a presidente da Associação demonstrando interesse e, para a minha alegria, ela respondeu meu e-mail prontamente, dizendo que eu poderia participar do Workshop, que a associação cobriria os custos de passagem e hospedagem e que seria um prazer me receber lá. Eu fiquei êxtase e sem acreditar!!!

Então, dia 22 de agosto, embarquei de Brasília, sozinha, rumo à Boston para o Workshop. Fui cheia de ansiedades… Com medo de ser nova, medo de não me entenderem… Mas foi simplesmente incrível. O Youth Workshop aconteceu nos dias 23, 24 e 25 de agosto em Boston. Foram cerca de 18 jovens portadores da condição genética de toda parte do mundo (Eu e outra menina do Brasil, Alemanha, Inglaterra, EUA, Canadá…). Todos me entendiam muito bem e até elogiavam meu inglês! rs Esse grupo de jovens já havia se reunido no 1º Youth Workshop, então eu era a única nova lá e eu fui muito bem acolhida e recebida por todos.

Fiquei extremamente feliz por isso!

O Workshop foi importante por alguns motivos:

1º pôde mostrar a nós, jovens portadores da condição, que não estamos sozinhos e que sim, é uma doença, mas não é uma sentença.

2º fomos convidados a participar de um estudo piloto (enquanto pacientes) sobre a síndrome em um hospital conveniado a Harvard (isso é incrível, além de ser uma oportunidade e tanto)

3º pudemos conhecer médicos, especialistas, pesquisadores dos EUA, da Alemanha e de Israel que estão super por dentro do que há de novo e que nos deram esperança ao falar do andamento dos estudos acerca da condição.

4º recebemos orientação desses especialistas sobre os cuidados com nossa própria saúde

5º participamos de uma visita aos laboratórios do hospital e aprendemos como os especialistas estudam sobre a síndrome (eles fazem testes com peixinhos, é incrível! Sério)

6º participamos de uma dinâmica muito legal em que montávamos a “estrutura” do DNA e do RNA com peças de Lego. Foi uma maneira simples, rápida e didática de entender como essa condição genética atua no nosso corpo.

7º alguns dos jovens agora são como “embaixadores” da associação em seus respectivos países. Eu e Olívia (outra garota do Brasil que estava no evento) fomos convidadas a sermos representantes/embaixadoras da Associação aqui no Brasil. Ou seja, estamos responsáveis por conversar com os pacientes, dar nossa palavra amiga e, encaminhá-los para a Associação, para que os pacientes recém diagnosticados ou que não tem ninguém para conversar possam ser acolhidos e possam receber as novidades sempre.

Foram dias muito, muito, muito especiais. Não sei descrever o quanto me senti querida e o quanto vivi uma intensa sensação de “pertencimento” ali naquele grupo. Conheci jovens das mais diversas idades que tiveram câncer (em diversas partes do corpo) e que assim como eu, também precisam realizar exames de acompanhamento com um intervalo de tempo um pouco menor que o normal para alguém que não é portador da condição genética. Saber que não sou a única e poder ouvir isso de outras pessoas me tranquiliza, me acalma e me renova para que eu continue minha jornada.

Sou só gratidão por tudo o que vivi, por ter feito novos amigos de várias partes do mundo e poder ter feito parte disso.

Que possamos retirar de tudo o que nos acontece o melhor, sempre.

Com amor,

Bel ❤️