Sobre aceitar a nossa própria história

Algumas vezes já escutei de mulheres que tem ou tiveram câncer que elas ficam sem jeito em relatar a experiência delas perto de mim, pois mesmo tão jovem eu falo sobre isso tão abertamente e encaro a situação de frente. A primeira coisa que quero dizer para você é que eu também sofri e sofri muito. Eu não sou a mulher maravilha e quem dera se eu fosse! A segunda coisa é que você deve respeitar os seus sentimentos, você deve aceitar a sua dor e deve viver não só essa fase, mas todas as fases da sua vida com toda a sua intensidade  e com o seu coração aberto.

Sofrer, chorar algumas vezes e até mesmo ficar triste é completamente aceitável nessa fase. Não se culpe por isso! A forma como eu encaro tudo não diminui em nada você ou a sua experiência. Sabe por quê? Nós somos seres individuais. Uma coisa que eu aprendi e que levo para a minha vida é que cada ser humano tem o seu próprio tempo para tudo, nós somos únicos. Sendo assim, aprendi que não devo me cobrar tanto, aprendi que eu tenho o meu próprio tempo para realizar os meus sonhos e minhas metas e que o que eu considero como ideal, não é o ideal de todos os seres. Então, se cobre menos, aceite o que você está vivendo! A aceitação é um grande passo a ser tomado, pois a partir do momento em que você aceita a sua condição, você já prepara o seu coração para o que está por vir, é um ato de coragem.

Considero como algo essencial ter fé e entregar nossa vida nas mãos de Deus, porque Ele sabe de tudo e Ele tem um plano muito maior para todos nós. Encarei o câncer como uma experiência de crescimento pessoal, espiritual e como algo necessário, eu tinha que ter passado por isso, foi a forma que me fez enxergar a vida de outro modo. Só que se você acha que para chegar até aqui e até esse pensamento foi fácil, pode desconstruir isso. Eu chorei também, eu me desesperei, eu senti muito medo e algumas vezes achei até que eu estivesse perto da morte, mas sabe o que saiu de tudo isso? Uma Isabel muito diferente, amadureci na marra e aprendi sob duras penas muitas coisas que eu levaria anos para entender e aprender caso eu não tivesse passado por isso.

Eu não odeio o que eu vivi, não tenho vontade de passar longe do Cettro (a clínica que faço tratamento) e também não fico nutrindo nada de ruim dessa fase, mas tudo isso decorreu de atitudes que partiram de mim com o meu coração aberto. Portanto, a dica que fica é: se aceite, tenha fé, faça planos, veja vida e um mundo de possibilidades além do câncer e não menos importante, mas essencial também: se apoie em quem te apoia e em quem quer te ver bem! Eu não tenho vergonha de ter tido câncer, não tenho vergonha da minha história e não tenho vergonha das minhas marcas, pois elas são a prova viva de tudo o que eu passei e sempre que eu olhar para elas ou para a minha história, eu me lembrarei de tudo o que me fez ser a pessoa que eu sou hoje.

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Fonte: Pinterest – não conheço o autor

Se aceita, viu?

Beijos,

Bel ❤️

Cuidados pós esvaziamento axilar

Depois de quase 2 meses da mastectomia e de todo aquele processo longo e angustiante, estou completamente cicatrizada, satisfeita com o tamanho das mamas e com o formato delas (que eu escolhi juntamente com a Dra. Marcela). O tempo é realmente o senhor de todas as coisas. No início fiquei triste, angustiada, agoniada e achando tudo feio e hoje, depois de meses, já estou tranquila e esperando a segunda fase da cirurgia que será feita só depois que eu terminar  o Xeloda.

A minha mastectomia foi feita juntamente com o esvaziamento da axila esquerda e retirada do linfonodo sentinela na axila direita. Meus movimentos estão excelentes, dou esse crédito ao Dr. João que foi super cuidadoso na minha cirurgia e, também à minha fisioterapeuta Raquel que me reabilitou com sessões fisioterapia e drenagem. Os cuidados que devo ter com os meus braços são para o resto da vida.

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FONTE: INCA https://bit.ly/2vF80j7

Se você não sabe nada sobre câncer e não tem contato com esse mundo, na certa deve estar se perguntando o motivo desse cuidado todo… Bom, caso eu não me cuide e sofra alguma queimadura, me corte, carregue peso e etc, eu posso desenvolver linfedema. O linfedema é um acúmulo de líquido no braço gerado por uma alteração na circulação linfática. Uma vez instalado, torna-se uma doença crônica. Eu sou extremamente cuidadosa e não quero nem saber de mais um problema na minha vida!

Sendo assim, percebi que se eu digitar em excesso, sinto dores nos braços, por isso, procuro realizar minhas atividades sempre nos meus limites e não mais que isso. Evito escrever (sou canhota e o esvaziamento foi do lado esquerdo), apenas escrevo o estritamente necessário (até troquei meus cadernos pelo meu notebook), não pego peso, não tiro sangue e não afiro a pressão no braço esquerdo, fico ligada para não me queimar ou me cortar e também não faço força com meus braços. Não vou negligenciar minha saúde, por isso sou cuidadosa nesse quesito.

Antes eu era super acostumada a estudar fazendo resumos imensos, agora eu tenho que me virar para fixar os conteúdos com outros métodos, enquanto isso fico testando novas formas de estudar. Uma hora chego lá… Preciso realizar uma atividade física logo, mas ainda estou enrolando porque não me sinto disposta para isso e também morro de medo de lesionar meus braços, preciso preparar meu psicológico e me sentir bem para isso. Uma coisa de cada vez, de pouquinho em pouquinho eu me readapto à minha nova vida!

Lembrando que cada caso é um caso, apenas estou relatando aqui minhas experiências e o meu ponto de vista!

Beijos,

Bel ❤️

Uma nova rotina pós câncer

 

Retomar a rotina não é fácil depois de ter passado por um tratamento pesado e desgastante. Eu escolhi retomar aos poucos algumas atividades que eu costumava ter antes do câncer (embora eu ainda esteja em tratamento). Na minha percepção tudo mudou, eu não sou mais a Isabel de antes… E sinceramente? Graças à Deus. Ninguém é o mesmo depois de um câncer, sinto que aprendi muito. Vivi e ainda estou vivendo essa fase com toda a intensidade que existe dentro de mim.

Aos poucos tenho procurado me reinserir aos contextos em que eu estava acostumada a viver antigamente, mas sempre respeitando os meus limites. E o engraçado é que muita coisa não se encaixa no mesmo lugar de antes. Meu círculo de amizades não é mais o mesmo (as enfermeiras que cuidaram de mim e minha fisioterapeuta são minhas  amigas também, eu criei um sentimento de afeto por todas), minhas prioridades e preocupações são outras, minha percepção sobre o mundo e sobre as pessoas mudou completamente. O meu olhar passou a ser outro, tive o privilégio de perceber o quanto nós, seres humanos, passamos por metamorfoses necessárias à nossa evolução. Devemos ser melhores sempre e, cada dia é uma oportunidade para isso.

Decidi por mim mesma que era a hora de voltar para a faculdade, mesmo com opiniões de pessoas que me amam dizendo que essa não era a hora, mas pela primeira vez, depois de meses eu pude ter a escolha do que fazer ou não com a minha vida e meu coração me dizia que eu deveria voltar sim, mesmo que não fosse fácil. Decidi voltar a dirigir aos poucos, vez ou outra bate insegurança, mas é tudo questão de tempo. Também decidi que é a hora de voltar a sair com minhas amigas, fazer as coisas que eu gosto, frequentar novos lugares, conhecer restaurantes novos (coisa que amo de paixão) e fazer tudo aquilo que me dá prazer.

Semanalmente tenho participado de uma reunião do Cettro que é um grupo de meditação com mulheres que tiveram câncer de mama e, além disso, ontem fui à uma roda de conversa da Ong Vencedoras Unidas que reúne mulheres que tiveram câncer de mama também. Embora eu seja a mais nova – sem exceção das vezes – nessas reuniões, eu sempre escuto muitos casos que me fazem refletir o quanto sou privilegiada por poder ter o melhor tratamento, o melhor oncologista, a melhor cirurgiã plástica, o melhor psicólogo, a melhor fisioterapeuta e as melhores enfermeiras que existem ao meu lado!!! Acho muito importante e bacana essa troca de experiências. Confesso que antes, bem lá no início, eu achava que não me sentiria muito à vontade com esses grupos de apoio, mas agora eu amo porque conheci muitas pessoas legais, é um mundo novo, com pessoas maduras que, mesmo que sejam mais velhas, me entendem muito e me acolhem de uma maneira linda!

Comecei o segundo ciclo do Xeloda na última semana, sem muitas intercorrências até agora, ainda bem! E avante!

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Abri esse livrinho e, por acaso caiu nessa mensagem que fez todo o sentido para mim… 

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Beijos,

Bel ❤️