Próximos Passos

Com o fim das quimioterapias eu já conclui boa parte da minha jornada contra o câncer – e creio que a pior parte também -,  agora eu tenho que me preparar para a cirurgia.

Ainda estou me recuperando da última quimioterapia, senti os efeitos colaterais de forma bem intensa. Nesse exato momento estou sentindo dormência nos pés e dor nas costas… Mas realmente não me importa, sinto esses sintomas e fico até feliz, pois sei que é a última vez.

Essa semana será bem carregada, pois irei refazer os exames que foram feitos quando descobri a doença (ressonância magnética, raio-x, risco cirúrgico, exames laboratoriais..). De certa forma, refazer todos esses exames me faz relembrar toda a angústia, desespero e medo que senti 6 meses atrás. Hoje já fiz a ressonância magnética com contraste (que por sinal, é um exame muito demorado), o resto da semana está preenchido com o restante dos outros exames.

A diferença de 6 meses atrás e hoje é a de que atualmente eu já estou mais tranquila e esclarecida, embora eu esteja super ansiosa para a cirurgia… Nas próximas semanas irei me consultar novamente com o Dr. João e com a cirurgiã plástica e iremos ultimar as providências para a mastectomia.

Beijos,

Bel ❤️

Que venha 2018!

2017 foi um ano bem intenso e tenso! Me vi inserida nos mais diversos contextos e nas situações que eu menos esperava, mas que de alguma forma, serviram de aprendizado. Tenho a sensação de que amadureci alguns anos em um ano.

Conheci muita gente incrível e percebi o quanto sou rodeada de gente do bem e que me quer bem. Me vi com uma doença séria e achei que estivesse com os dias contados, mas de uma forma surpreendente me descobri mais forte do que eu imaginava e tenho conseguido encarar toda essa situação com leveza e positividade. Me aproximei mais de Deus, e me sinto amparada por Ele o tempo todo. Estou bem mais próxima da minha família e valorizo a cada dia a importância dessa união. Algumas pessoas se afastaram, outras se aproximaram, o que me fez ver quem realmente está ao meu lado. Me decepcionei também, mas ficou a lição de que eu sei exatamente o tipo de pessoa que quero dentro ou fora da minha vida. Fiz planos que não se concretizaram e me chateei por isso, mas ficou claro que está tudo nos planos de Deus.

Chorei, sorri, tive medo, senti dor, senti alívio, mas em todos esses momentos mantive fé. Aprendi a superar as adversidades, a manter a fé independente das circunstâncias, a ser resiliente, a persistir, a ter paciência e a valorizar as pequenas coisas que antes eu deixava passar batido.

A verdade é que o câncer me fez abrir os olhos, e eu sinto que se fosse como um despertar em mim para a vida, sinto muita vontade de viver,  tenho planos e projetos em mente, sinto vontade de ajudar outras pessoas, de estudar muito mais, de ver o mundo e de poder fazer a diferença. Quando você passa por uma doença que exige e mexe tanto com você, nada parece ser como antes, e comigo é assim, embora eu tenha apenas 21 anos, tenho a impressão de que o que eu já vivi não foi da maneira que eu deveria, e o meu desejo para  o próximo ano é de viver mais intensamente, com gratidão por cada mínimo detalhe,  com muita saúde, amor, luz e muita positividade. Que 2018 traga a minha cura e me surpreenda positivamente!

Beijos,

Bel ❤️

Reflexões…

Antes de vivenciar o câncer eu era uma outra pessoa – não que eu fosse uma pessoa horrível, mas com certeza eu era bem diferente do que hoje sou. Hoje vejo que vivo uma montanha russa, e a cada subida e especialmente na descida eu aprendo um pouquinho mais.

Nos últimos meses passei por muitos momentos desconfortáveis, mas também vivenciei coisas bonitas. Conheci muitas pessoas bacanas e adquiri um carinho imenso por todos que cuidam de mim, tenho certeza que jamais me esquecerei dessas pessoas. Tive a oportunidade de conhecer pacientes que passam pelo mesmo tratamento que eu e vi que cada um tem a sua própria maneira de conduzir as coisas. Além disso, vi também que o câncer não distingue as pessoas, ele não escolhe gênero, raça, idade ou classe social. Todos nós somos igualmente elegíveis.

Diante de tal vivência, tenho tirado algumas lições e vislumbrado diferentes maneiras de encarar minha vida quando tudo isso passar. Sobre isso resolver escrever hoje…

Antes, qualquer coisa que não fosse de acordo com o meu planejamento era o fim do mundo. Hoje eu já aprendi a aceitar;

Antes, minha mãe me lembrava que “a gente tem um plano, mas Deus tem outro”. Hoje eu sei, que o meu tempo tinha pressa, mas o tempo de Deus tem perfeição;

Antes, meu mundo era cor de rosa e eu me achava bem frágil. Hoje, meu mundo deixou de ser cor de rosa e tem as cores do arco íris, vejo que sou forte e tenho conseguido equilíbrio para passar por todo esse processo, embora eu tenha meus dias difíceis;

Antes, cortar as pontas do meu cabelo era uma tortura para mim e eu sempre achava que ele não tinha crescido o bastante. Hoje, sinto uma imensa alegria a cada dia que me olho no espelho e percebo novos fios nascendo e outros crescendo;

Antes, eu tinha o costume de malhar quase todos os dias, fazia dietas e tentava manter um corpo que eu achava que era ideal, embora fosse extremamente magra. Hoje, eu sei que exercícios físicos e dietas são importantes, mas que pensar apenas na beleza física/exterior não é saudável, porque nosso sentido percebe a beleza física, mas é a inteligência moral que percebe a beleza espiritual e esta tem um valor permanente, que não se desgasta com o tempo;

Antes, eu me cobrava demais, o resultado de tudo o que eu fazia devia ser ontem, eu não sabia esperar, ficava agoniada e impaciente com qualquer tipo de demora. Hoje, embora ainda esteja aprendendo a ter paciência, já aprendi que tudo tem o seu tempo;

Antes, eu gastava muito do meu tempo e da minha energia pensando na minha vida profissional, no quanto eu seria bem-sucedida, que precisava sempre ser a melhor no que eu fazia. Hoje, ainda desejo ser bem-sucedida, mas sei que devo me cobrar menos, pegar mais leve comigo mesma, e tudo bem se eu não for tão bem em algo;

Antes, o meu encontro com a minha família era nas datas comemorativas, na verdade passava muito tempo só com a minha mãe. Hoje, passo as 24 horas do dia com a minha mãe, mas também tenho passado mais tempo com as minhas tias e com o meu irmão e vejo o quanto isso é importante e gratificante;

Por fim, antes as pessoas não se aproximavam de mim para falar de Deus, para falar sobre a minha missão nessa vida. Talvez por isso eu não sentia um Deus tão presente na minha existência, tão vivo dentro de mim…

Talvez por isso, antes de vivenciar o câncer eu era uma outra pessoa.

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Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

  Beijos,

Bel ❤️