Andei pensando…

Queria agora, nesse exato momento estar no meu tão sonhado intercâmbio, mas estou aqui digitando sobre essa experiência maluca que é o câncer e o pós câncer. Eu deveria me preocupar com as minhas provas que estão chegando, mas na verdade mesmo me preocupo muito mais com meus próximos exames. Queria muito conseguir focar nas minhas leituras da faculdade, mas o que mais tenho lido e consigo focar com facilidade desde o ano passado é sobre tudo o que envolve o mundo do câncer, mastectomia e bulas de medicamento.

O Dr. João e a minha mãe se tornaram alguns dos meus ídolos, quem é a Anitta perto deles? Por favor, né? E a minha vida social? Mais agitada impossível, sempre tem uma ida ao Cettro ou alguma consulta na agenda. E se eu sinto frio na barriga porque alguma coisa diferente vai acontecer? Claro que sinto, toda vez que me recordo como era passar pelas quimioterapias ou até mesmo quando sinto alguma dor diferente porque logo já me vem mil pensamentos à mente… Sim, eu tenho fé, acredito em Deus e sei que vai ficar tudo bem, mas também sei que ter medo e ficar apreensiva é normal, afinal, eu sou humana, passei por diversas situações que mexeram e mexem com o meu emocional até hoje.  O meu ideal de vida sempre foi ser bem sucedida em todos os campos da minha vida e o de conseguir conhecer o mundo, mas agora, além disso tudo, o que mais quero e tenho como principal ideal é me ver livre de tudo isso e de ter a certeza de que estou curada.

Às vezes eu olho para as pessoas da minha idade e vejo que todos possuem prioridades e preocupações diferentes das minhas e, por um momento bem lá no fundo eu também queria que fosse assim comigo… Foi duro ter que amadurecer tanto por conta de uma doença que me fez perceber o quão somos frágeis. Eu tento olhar pelo lado positivo e vejo que sou grata e privilegiada (sim, privilegiada!!!) por poder ter tirado coisas boas dessa fase da minha vida, afinal, se nada tivesse acontecido, eu não teria selecionado quem participa ou não da minha vida, não teria melhorado como ser humano, não teria crescido e amadurecido e também não teria tido oportunidades tão bacanas, além de poder ter conhecido pessoas que quero ter sempre por perto.

Eu não sei bem dizer qual o momento exato isso aconteceu, mas tudo mudou de lugar na minha vida. Sinto que Deus chegou com um propósito maior que foi o de me fazer entender que eu não controlo nada, além de me fazer enxergar o que realmente importa. É um processo lento e doloroso, há dias que eu até “esqueço” por algum momento e isso tudo dói bem menos, mas também há dias como hoje que dói um pouquinho mais. O jeito é aprender com tudo isso e ser melhor a cada dia que passa, não é? Me entregar nunca foi uma opção.

Também nunca me esqueço de algo que minha mãe sempre me diz, acredito que seja bíblico, não tenho certeza, mas é a seguinte frase: “nenhuma folha cai de uma árvore sem a permissão de Deus.” Isso me conforta, porque eu sei que tudo tem um motivo maior, nada é em vão e que a vida me reserva muitas coisas incríveis!

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Beijos,

Bel ❤️

Um dia de cada vez

Todos os dias eu exercito a paciência porque a recuperação da mastectomia não é fácil, além disso, é um processo demorado que exige muita calma.  Eu imaginei que depois de quase 40 dias de cirurgia eu já estivesse me sentindo muito bem… Mas não é bem assim, o processo de cicatrização tem sido muito lento e eu ainda não me sinto a Isabel que eu era antes de ter tido câncer (pelo menos no quesito disposição). A Isabel de antes tinha energia, tinha disposição de sobra e conseguia se levantar ou se deitar sem reclamar de dores nas pernas e no tornozelo. Acho que ainda deve ter resquícios de quimioterapia em mim, porque não pode ser normal a forma que tenho me sentido nos últimos dias. Me sinto enferrujada, não vejo a hora de ser liberada para praticar uma atividade física e me sentir com a idade que eu realmente tenho.

Quanto aos movimentos dos meus braços, sinto que eles estão ótimos. A fisioterapia me ajudou demais, ainda sinto um pouco de dormência e, vez ou outra, sinto pontadas nos braços e nas mamas, mas a Dra. Marcela e a Raquel disseram que isso é bom, quer dizer que a sensibilidade está voltando.

Bom, o que eu preciso é que o local da cirurgia cicatrize logo para que eu continue o resto do tratamento. Como o Cettro trata pacientes, a minha radioterapia foi substituída por quimioterapia oral. Eu ainda não sei bem os detalhes, só saberei de tudo certinho quando eu estiver recuperada dessa mastectomia. O Dr. João disse que só posso começar essa quimio oral depois disso, então estou aqui aguardando. Como sempre.

A máxima dos meus dias têm sido: paciência. É isso, um dia de cada vez.

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Beijos,

Bel ❤️

Mastectomia e Pós-Cirúrgico

Fiz a mastectomia no dia 2 de fevereiro, e, desde então estou me recuperando em casa. Só tenho a agradecer aos meus médicos, o Dr. João Nunes e a Dra. Marcela Cammarota, pois eles e toda a equipe que os acompanham foram extremamente zelosos comigo. Também sou muito grata à minha madrinha que se dispôs a acompanhar e ficar ao meu lado dentro do centro cirúrgico do início ao fim do procedimento cirúrgico, isso me deixou muito, muito feliz.

Como sempre falo a verdade aqui no blog, me sinto na obrigação de dizer que não é nada fácil passar pela mastectomia. Muitas mulheres me disseram que não sentiram dor após a mastectomia e que essa fase era mais tranquila, mas não é não. Dói física e emocionalmente. Dói muito!!! Eu fiquei tranquila com as quimioterapias porque eu sei que unha cresce, cabelo cresce, a pele melhora depois, peso eu posso perder… Mas e as mamas que foram mutiladas? Tudo bem que já foi colocado silicone, mas é complicado…

Sei que o Dr. João e a Dra. Marcela, fizeram o máximo para que as cicatrizes fossem o menor possível, pois eles sabem que eu tenho 21 anos, que ainda estou no início da minha vida adulta e que tenho muita vaidade, por isso, me sinto privilegiada por poder ser paciente deles, entendo que o melhor foi feito. Embora todos tenham me dito que é um resultado bom, eu esperava o resultado de uma cirurgia estética, mas não é uma cirurgia estética nem de perto, foi a reconstrução da mutilação que o meu corpo sofreu. Tem sido muito duro, não é nada fácil para mim. Eu tenho muitas restrições e os meus movimentos estão bastante limitados.

Eu tinha um corpo antes disso tudo, e era um corpo que eu gostava. Hoje, eu tenho um corpo que estou aprendendo a conviver, pois ele foi mutilado. Não encontro outra palavra, pois a mastectomia não é nada menos que uma mutilação. É fato que eu nunca mais vou ter as mamas de antes e eu ainda estou digerindo isso. A angústia é grande, o medo também, pois eu me olho todos os dias e tenho medo de que não fique bonito, porque está achatado – isso, porque as próteses foram colocadas atrás do músculo peitoral, e a reação natural do músculo é a de ‘expulsar’ esse corpo estranho que são as próteses, mas elas irão se acomodar com o tempo -, estou com pontos e ainda está inchado… Além disso, com o esvaziamento da axila eu tenho restrições com o braço esquerdo pro resto da vida (e eu sou canhota!!!) para evitar linfedema.

A palavra que mais escuto é paciência, pois preciso me recuperar para a próxima cirurgia e para o resto do tratamento. Enquanto isso eu estou me recuperando em casa, tem sido um período muito delicado de total dependência da minha mãe, que tem me ajudado a tomar banho e nas demais tarefas diárias. Minha tia Rejane também tem me ajudado muito emocionalmente, pois sempre tem palavras de apoio e de compreensão. Preciso ficar de repouso, e como eu quero voltar a viver minha vida logo, estou seguindo todas as recomendações médicas e não estou recebendo visitas até me sentir bem de verdade.

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Foto: Sabrina Cavalcante
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Foto: Sabrina Cavalcante

 

Beijos,

Bel ❤️